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quinta-feira, setembro 20, 2012

Portugal vai melhor visto de fora

Sol espreita de fora
Portugal não necessita "nem de mais tempo  nem de mais dinheiro dos seus credores", insistem os optimistas, isto é se continuar a aplicar o programa ambicioso de reequilíbrio da economia.
Historical Data ChartE os optimistas são aqueles que acreditam que Portugal poderá vir a reembolsar, por inteiro, a sua enorme dívida externa bruta, de €386 biliões a Junho 2012,  isto é que poderá vir a ter superávits externos substanciosos e persistentes.

O ajustamento externo está a correr tão bem que parece ter sido “tirado a papel químico” da experiencia de 1983-84, segundo alguns analistas. 

O défice externo da BTC- Balança de Transações Correntes, desceu de €8 401 milhões no período  Jan-Jul 2011 para apenas €1 979 milhões de Jan-Julho 2012, um feito deveras excepcional. O défice anual da BTC que andou nos -10% do PIB durante toda uma década, já tinha caído quase 40% de €18 biliões de 2009 para €11 biliões em 2011(-6,6% of PIB).  Este ajustamento extraordinário em menos de 2 anos deve-se sobretudo a uma forte expansão das exportações, sobretudo para fora da União Europeia, de +32,8% no período de 2009 a 2011, e de +8,6% no período Jan-Julho de 2012, comparado com o período homologo do ano anterior.  

Em 2012, estamos a ver, finalmente, uma compressão de -5,% das importações e do consumo de bens e serviços importados, pela primeira vez na memória recente, graças,  provavelmente, ao corte do crédito externo.  

Segundo um estudo de Mastroyiannis,  a longo prazo, são os fluxos de capital que alimentam os défices da balança corrente, e não o contrário.   Isto é bem visível na evolução  da Balança de Transacções Correntes que esteve praticamente em equilibrio de 1985 a 1995, e que se agravou persistentemente a a partir de então com a entrada descontrolada de crédito externo fácil, um tsunami de hot money. que está a sair da mesma forma

A cobertura de X/M já vai em 85,6% em 2012, comparado com apenas 64,3% em 2009.  Contando também com um modesto aumento no superavit da balança de serviços, há boas possibilidades de Portugal reportar uma BTC praticamente equilibrada no total do ano de 2012.     

Esta redução surpreendente do défice externo é bastante  mais importante do que a derrapagem do défice orçamental, devida à mesma quebra do consumo de bens importados e da respectiva receita fiscal, especialmente do IVA. 

Entretanto o aumento da poupança tem ajudado a estabilizar os depósitos bancários, e o mercado financeiro externo já reconheceu o reequilíbrio prometedor, fazendo descer as taxas de rendibilidade das OTs desde inicio 2012,  de 18% para 8%. 

Noite cerrada cá dentro
Mas se um novo dia parece espreitar no sector externo, o ambiente politico interno ainda é de noite cerrada, e agravou-se mesmo com a aplicação das medidas de austeridade previstas no programa, cada uma mais dura do que a anterior.  Especificamente, acabou por romper-se o frágil consenso devido à proposta de compensar a redução da TSU (a contribuição da entidade patronal para a Segurança Social) com um  aumento da TSU paga pelos trabalhadores. 

A redução da TSU das empresas estava no Memorando de Entendimento desde o início em Maio 2011.  Com as receitas do IVA a cair e o Tribunal Constitucional a bloquear o corte da despesa pública através do corte de subsídios aos trabalhadores da Administração Pública, faltava encontrar outra forma de compensar a perda de receita. Mas o aumento da TSU dos trabalhadores reduz o rendimento disponível de uma forma muito directa e visível, o que desencadeou uma onda de contestação generalizada, à mistura com alguma hipocrisia ou até demagogia da parte de alguns líderes, que ainda não quiseram admitir que iríamos ficar mais pobres e que a queda do consumo teria que ser permanente.

É caso para dizer, quem não tem Telhados de Vidro Orçamentais que atire a primeira crítica ou que ofereça outra solução. 

Uma vez que a redução da TSU das empresas parece ser imprescindível para conseguir a chamada "desvalorização interna", isto terá que ser compensado com mais austeridade, suportada pelos mesmos de sempre.

Mas não basta estabilizar a economia, urge relançar o crescimento, e isso vai ter que passar pela actividade das empresas privadas, sobretudo pela exportação.  Aí, a Central de Balanços do BdP mostra um sector empresarial fortemente descapitalizado e frágil.  Para voltar a crescer, vai ser necessário regularizar o acesso ao credito, especialmente o crédito à pre-exportação, que continua reduzido. 

Falta criar um país novo
Para quem acredita que a crise também traz oportunidades, há muito a fazer para criar um país novo, moderno, que não dependa do Estado, mas que seja movido pelo mérito.

Portugal é, afinal, o país mais desigual da Europa e também o país onde a desigualdade mais aumentou nas décadas recentes, na medida em que as elites conseguiram apropriar-se de muito do aumento no rendimento.

Não haverá maior motivação que esta para fazer uma mudança de fundo, nem para as inevitáveis resistências.  

Vamos ser optimistas:  trabalhar para o melhor e precaver o pior.