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domingo, julho 03, 2011

Distribuição da exposição bancária da Eurozone

Diz-se que não há informação fidedigna sobre quem tem exposição directa à Grécia (obrigações gregas) e quem comprou ou vendeu protecção de risco (CDS-credit default swaps) sobre  a dívida grega, o que não parece credível passados tantos meses de crise. 
Os bancos pagadores sabem sempre quem recebe os juros das obrigações.  
Diz-se também  que apenas 1% dos CDS estão registados, mas os CDS são contratos inter-credores e os credores que venderam CDS juntam-se a outros garantes como credores de segunda linha, que não acrescentam ao saldo em dívida. 


A identificação dos credores pode começar pelas listas do BIS, Banco de Pagamentos Internacionais.  Sabe-se também que os bancos estrangeiros têm reduzido a sua exposição à divida grega, irlandesa e portuguesa, à custa de aumento de exposição dos credores oficiais e dos investidores locais.  
De facto, a crise grega representa também uma enorme prova de stress para o mercado de CDSSerá que os CDS, cujos prémios custam tudo para cima de 10-15%, conferem verdadeira  “protecção” na pratica?
Agora que o Eurogrupo vai condicionar o novo pacote Resgate II ao envolvimento dos credores privados internacionais na resolução do crise de endividamento grega, os credores directos vão ter que se identificar, ou indicar os credores indirectos, isto é accionar a protecção do CDS.   
Note-se também que os bancos do Reino Unido tinham no final de 2010 a segunda maior exposição aos países em crise, depois da Alemanha, isto é, foram uma parte importante do problema de "loose lending practices".    
Mas o governo britânico tem conseguido distanciar-se da solução, e só se comprometeu com cerca de €7 mil milhões para a Irlanda, €4,2 mil milhões para Portugal, e cerca de  €1,3 mil milhões  para a Grécia. 
Nada como andar à boleia



Mais recentemente, o relatório da Comissão EU sobre a Grécia, de Julho 2011, analisa as consequências de uma potencial reestruturação de dívida, num cenário de perdão ou “haircut” de 40% da obrigações do tesouro grego.  Segundo o relatório, tamanha 

redução em valor devastaria os bancos gregos, que detêm cerca de € 40 mil milhões de divida estatal, e fundos de pensões com   €27 mil milhões, eliminando capital, e dando  azo a corridas de depósitos e de capital.   
Por isso, parece mais que evidente que os credores domésticos não podem, nem devem,  suportar uma redução do valor da dívida externa. 

Esta análise baseia-se numa premissa equivocada e provavelmente sem precedentes, que os credores locais seriam  os primeiros a sofrer sacrifícios.    

Ora, os países sobre endividados necessitam sobretudo da redução da sua dívida externa.  De pouco adianta impor perdas aos credores e investidores locais, que tinham toda a legitimidade para considerar as obrigações do seu Tesouro, na sua própria moeda, o Euro,  como uma reserva de valor segura.  Em contraste, os investidores internacionais sabiam certamente que estavam a correr riscos "cross-border".  
No caso da suspensão de pagamentos do México em 1982, os activos em moeda local não sofreram redução.   Em contraste, os depósitos bancários locais denominados em USD, num sistema bancário fortemente dolarizado, esses sim foram obrigatoriamente redenominados em pesos mexicanos ao cambio pre-desvalorização, o que foi muito prejudicial.   E sim, isto provocou uma forte saída de capitais.
Se houver "haircuts", eles devem ser assimétricos, protegendo os investidores e credores  locais.   Não será possível, nem tem lógica, exigir que os aforradores locais sofram perdas e ainda tenham que pagar mais impostos para reembolsar por inteiro os credores internacionais, privados ou oficiais.     

Estamos,  de facto,  em "mares nunca dantes navegados", e continua a faltar o sextante.   
Mariana Abrantes de Sousa
PPP Lusofonia 
Ver Comissão Executiva na ETV de 4-Julho-2011 sobre o Resgate II à Grécia