Eu sou do tempo em que a aldeia não tinha eletricidade e que os poucos carros tinham duas baterias: uma para rolar e carregar, e outra para alimentar um RÁDIO enorme que ocupava um lugar de honra na sala de visitas. A grande bateria negra ficava debaixo da mesinha do RÁDIO, devidamente escondida atrás de uma cortina.
Quando chegou a eletricidade, nos anos 1960s, apareceu um pequeno rádio vermelho, com menos botões mas mais capacidade de captação que já ficava na cozinha, a acompanhar a preparação das refeições.
À noite sintonizavam-se outras emissoras de onda curta, que traziam as notícias censuradas nos jornais e na radio nacional pelo regime de Salazar, que passou a ter os anos, senão os dias, contados.
Passados 60 anos, continuamos a ver regimes autocráticos e totalitários a conseguirem controlar as opiniões e as informações que chegam aos públicos equipados de smartphones e habituados à Internet.
Alguns analistas sugerem mesmo que esta censura permite controlar a opinião publica e assim reduzir o efeito doméstico das sanções económicas internacionais.
VER Iran Censorship and Sanctions
Campanhas DBS Divestiture, Boycotts, Sanctions levaram 30 anos a cerrar as lacunas e a ter efeito na Africa do Sul, uma sociedade relativamente "democrática" e aberta.
As sanções atuais contra a Russia dificilmente terão efeito em tempo útil na Russia, e a Ucrania não pode esperar quando qualquer soldado em retirada pode fazer dezenas de vítimas.
As Sanções funcionam através do impacto na população e na opinião pública do agressor. Mas isso pode acontece com uma censura tão apertada?
Falta examinar como é que um regime ditatorial consegue HOJE controlar mais as opiniões, a informação e os media, com Internet, smartphones e satélites, de que Salazar conseguia com a censura dos anos 1950-60s com uma população pobre e pouco letrada.
Mariana Abrantes de Sousa
Economista
2022-04-06



