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quarta-feira, março 05, 2008

TRÁFEGO, TRÁFEGO, TRÁFEGO


Artigo publicado no jornal Expresso 14-Junho-2003

Quando eu era jovem analista de crédito num grande banco americano, aprendi os três CCC da boa concessão de crédito: carácter, carácter, carácter. Esta sigla dos CCC resumia a sabedoria e experiência dos colegas mais velhos que nos davam formação. Isto é, se o devedor for desonesto e não quiser pagar o empréstimo, de pouco vale o resto da análise de crédito. Esta regra, obviamente simplista, tem o defeito do exagero, mas tem a virtude de focar as atenções do analista sobre as questões essenciais na decisão de emprestar ou não.
À semelhança dos CCC do crédito, podia aplicar-se uma regra simples dos TTT no financiamento dos projectos de transportes: tráfego, tráfego, tráfego. A principal determinante de se um projecto de transporte pode e deve ser financiado, é o volume de tráfego existente e previsto, incluindo uma estimativa do tráfego induzido que é gerado pela própria existência da infra-estrutura. Isto significa que merecem ser financiados sobretudo os projectos que apresentam uma maior previsão de tráfego feita em moldes realistas e conservadores, a fim de evitar elefantes brancos sobredimensionados ou congestionamento no primeiro ano de serviço quando a estrada ou o terminal foi sub dimensionado.

Esta regra dos TTT deve inclusivamente aplicar-se aos projectos financeiros pelo sector privado em regime de Project Finance. Nestes casos, o financiamento tem que ser reembolsado, a partir das próprias receitas de tráfego, nomeadamente nos portos, aeroportos, comboios, eléctricos, parques de estacionamento e estradas com portagem.
Nenhum operador e investidor privado pode dar-se ao luxo de investir num projecto que depende de um volume de tráfego médio diário de 10.000 se as previsões mais optimistas indicam apenas 5.000 utentes a longo prazo, pois teria que esperar muito mais tempo para recuperar o seu investimento.

Na prática é muito difícil acertar nas previsões de tráfego. As infra-estruturas de um aeroporto implicam investimento de muito grande escala e um longo calendário de execução, a decisão de avançar ou não com um novo projecto torna-se ainda mais difícil e arriscada. Adicionalmente, ao contrário de uma estrada, um aeroporto tem custos fixos muito elevados, tornando-se deficitário a baixos níveis de ocupação. Por isso é importante focar nos factores essenciais como as previsões de tráfego, os requisitos técnicos e o tempo de construção.
Apreciando as recentes discussões a respeito do aeroporto da OTA à luz da regra dos TTT, pode concluir-se:
- O tráfego aéreo de Lisboa não é nem se prevê que venha a ser suficiente para sustentar dois aeroportos.- Manter dois grandes aeroportos a funcionar a baixos níveis de ocupação destrói muitas das potenciais sinergias quer para os passageiros quer para as linhas aéreas.
Dispersar actividades por dois aeroportos teria consequências financeiras negativas não só para a ANA mas também para a TAP.
- Existem casos em que se manteve o antigo aeroporto apesar dos baixos níveis de tráfego, por exemplo “o problema Malpensa” Itália, mas estes são considerados casos de triste memória pelos investidores do sector.
- O tráfego aéreo de Lisboa é sobretudo um tráfego de passageiros, pois o tráfego de mercadorias em Portugal passa principalmente pelo transporte rodoviário, por exemplo no caso das importações de Espanha que é o nosso principal fornecedor, pelo que não tem relevância a referência às ligações ao porto de Sines.
- A manutenção de um aeroporto dentro de um grande centro urbano tem evidentes benefícios em termos de tráfego, mas exige uma política de segurança e de desenvolvimento a muito longo prazo com reserva de terrenos para expansão, o que não tem sido feito em Lisboa. Não basta querer manter e expandir o aeroporto na Portela, é necessário limitar a construção e desenvolvimento em áreas adjacentes, incluindo a Alta de Lisboa, o que não tem sido feito.
Convinha orientar a discussão do novo aeroporto de Lisboa em função dos TTT, tráfego previsto, tráfego mínimo e composição de tráfego, evitando que se perdesse de vista o essencial no serviço público de transportes e no seu financiamento.
Mariana Abrantes de Sousa
Economista
14-Junho-2003
EXPRESSO-
Mas, de acordo com o que o EXPRESSO apurou junto de fontes próximas deste processo, a possibilidade ... Tráfego, tráfego, tráfego Mariana Abrantes de Sousa
...clix.semanal.expresso.pt/2caderno/default.asp?edition=1598
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Estudos sobre Risco de Tráfego, JM Vassallo, 2009