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sábado, novembro 12, 2016

Numa democracia, não há candidatos errados, apenas eleitores tontos

Resultado de imagem para hillary never stop believingPrognósticos só no fim das eleições

Economista não deve fazer previsões políticas, mas todo o cidadão deve ter uma opinião bem informada, e sobretudo preparar-se para enfrentar as consequências da decisão colectiva.  Apesar de ter ganho o voto popular, Hillary Clinton ganhou apenas em 20 dos Estados.  E nos Estados Unidos, a eleição presidencial depende do sumatório das eleições estaduais, o tal Electoral College.  
Fala-se muito do apelo de  Donald Trump aos eleitores sofredores e esquecidos, mas a taxa de desemprego americana é de apenas 4,9%, o que pode ser considerado pleno emprego.
Dos 20 Estados com desemprego acima da média, 8 Estados votaram em Hillary, incluindo New Mexico. Dos 30 Estados que votaram no Trump, 17 Estados têm desemprego abaixo da média nacional americana.

Em Portugal o desemprego  é bastante superior (acima de 12% desde 2019) mas os portugueses votam com os pés, emigram.  Em suma,

      In a democracy, people get the leaders they deserve.
      In a democracy, there are no wrong candidates, only foolish voters.

A 5-Novembro-2016 o DN convidou para almoço e conversa acerca das eleições americanas.  Eis alguns excertos da entrevista no DN, que pode ser vista em:
http://www.dn.pt/mundo/interior/hillary-e-uma-mulher-de-armas-se-for-eleita-sera-historico-5480896.html  

"Quando Mariana chegou aos Estados Unidos, Lyndon Johnson era o presidente. Seguiram-se Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan. Confessa que desde que obteve a dupla cidadania passou a votar, mas "nunca automaticamente". Olha sempre com atenção para o boletim de voto, que costuma ser complexo, com candidatos a presidente, a congressista, a mayor, e admite que votou já "ocasionalmente num ou noutro partido. O meu voto não está cativo".

Por isso hoje vota, à distância, como residente de Nova Jérsia. Pousa o garfo e a faca e procura mais uma folha com gráficos. Desta vez é o peso eleitoral de cada um dos 50 estados e de como os americanos no exterior valeriam tanto como o Colorado se fossem considerados um círculo.

pergunto se alguma vez teve atividade partidária. Responde que não, que não a atrai. Mas que sente vontade de intervir na sociedade, seja como economista seja como cidadã. Por isso tem os blogues PPP Lusofonia e beijozxxi, integra a Soroptimist Portugal (uma espécie de Rotários só para mulheres) e é tesoureira da Sousa Mendes Foundation (dos Estados Unidos), além de presidente do American Club de Portugal.

Regressamos à política americana. Mariana não gosta quando ouve falar mal dos Estados Unidos. "Têm coisas más e coisas boas, como qualquer país. Mas têm de ter muitas coisas boas mesmo, já que são tão bem-sucedidos." Sobre estas eleições, em que o favoritismo de Hillary Clinton no campo democrata se comprovou apesar do desafio de Bernie Sanders, mas em que os republicanos se deixaram surpreender nas primárias e têm agora Trump como candidato, a economista admite ter feito um esforço para estar a par. Conta que há uns meses, para se preparar para uma entrevista, esteve a ver vários vídeos de Trump: "Tinham todos três ou quatro minutos. E sempre o mesmo formato. Os primeiros 30 segundos era a falar de barbaridades, tipo excluir os imigrantes. Mas depois, quem ainda não tivesse desligado, ouvia Trump a falar do desemprego de longa duração, de cidades que já tinham tido tempos bons mas agora viviam os maus, como Cleveland. E isto fez-me pensar nos riscos que é a democracia ignorar os perdedores da globalização. É que se em Portugal esses votam com os pés, emigram;  nos Estados Unidos votam nas urnas."

Que Trump consiga apelar a muitos americanos "é assustador", acrescenta a luso-americana. "Não está preparado para ser presidente. Aproveitou-se da notoriedade para ganhar apoio. E muitos republicanos tardaram demasiado a afastar-se. Ainda no outro dia ouvi a Condoleezza Rice a dizer que era contra Trump. Não percebo porque só agora." Além de impreparado, que seja sexista e xenófobo também a incomoda.


Já sobre Hillary, realça que se trata de "uma mulher muito inteligente, o que nem sempre é fácil. Tem uma capacidade de assustar muita gente. Mas tem sido uma líder desde a universidade. E possui uma visão estratégica. O problema é que para ganhar não é preciso o mesmo que para governar". Insisto se não quer mesmo dizer em quem votou para as presidenciais de dia 8. "O voto é secreto", responde, com um sorriso.

Pedimos a conta e preparamo-nos para nos despedir. Chega um licor de menta, oferta da casa (quando chega a conta, descubro que também as entradas foram uma gentileza). Mariana elogia o restaurante (Ingrediente no Alto de Algés), diz que almoça aqui várias vezes, outras vezes compra-lhes comida para levar para casa, ali perto. "Gosto do comércio de proximidade. Nos Estados Unidos é comum o zoning, zonas bem separadas para habitação e comércio. É um daqueles casos em que prefiro Portugal à América. Mas temos de dar o nosso contributo para defender estes restaurantes de bairro", salienta. É a tal "citizenship", ou cidadania, palavra que ouviu pela primeira vez quando chegou à América. Outra foi "leadership", liderança.


Em 2017, o American Club celebra 70 anos como forum de diálogo e discussão. E prepara uma grande conferência em outubro com os American Club da Europa. Entretanto, continuará a promover os "american values", diz Mariana, e os almoços-debate. Há dias foi Catarina Albuquerque a convidada, a portuguesa que foi a primeira relatora da ONU para a Água. No dia 9-Nov, acontecerá um jantar Day After, com Nicholas Kralev, um politólogo americano, que vai analisar o resultado das eleições da véspera. Falará certamente da clivagem entre democratas e republicanos, que a presidente do American Club considera um dos grandes problemas dos Estados Unidos."