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quarta-feira, julho 16, 2014

Sonho de uma União Europeia pacifica e próspera ameaçado pela desigualdade

Obra e (des)graça do Espírito Santo
A crise no grupo e no banco  Espírito Santo demonstra a fragilidade da recuperação económica e do atraso no ajustamento  financeiro na Eurozone,  que passam obrigatoriamente pela banca.

Pelos vistos, a crise no BES tem origem não só no problema geral de credito mal parado tardio que continua a bater recordes em Portugal,  agora no 5º ano de grande recessão. Este problema generalizado foi provavelmente agravado pela governação desgovernada e escandalosa do grupo Espírito Santo.  Torna-se evidente que  administração cessante e o Banco de Portugal erraram ao prescindir do apoio do Estado em tempos,  aparentemente para evitar as condições de contenção e transparência  que foram impostas aos outros bancos.

Provavelmente, se tivesse havido intervenção do Estado no BES em  momento oportuno, ter-se-ia evitado os erros de gestão subsequentes que se manifestam agora, como os conflitos de interesse e os créditos cruzados com pouca lógica de negócio.

Uma vez que parte do financiamento da Troika reservado à recapitalização da banca ainda continua disponível , €6.4bn até Outubro de 2014,  desta vez o Estado deveria colocar a defesa do sistema bancário nacional acima dos interesses dos accionistas e dos gestores responsáveis pela má gestão.  A intervenção do supervisor  bancário deveria ser rápida e limpa, assegurando a recapitalização do Banco Espírito Santo, a protecção dos depositantes, o saneamento da carteira e bom controlo dos processos de concessão de crédito e de gestão de riscos.

VER o video do Conselho Consultivo, ETV  http://videos.sapo.pt/ZGzSDiBmZwyr4wbJvP7G

Desafios de Presidente Juncker - Menos desigual ou menos Europa 
O caso Espírito Santo demonstra também que o que ainda falta fazer na União Europeia, nomeadamente inverter a divergência entre países credores e devedores, numa Europa cada vez mais desigual.  Convém recordar que a crise da Eurozone teve origem na banca, pois  foi a banca internacional que  financiou boa parte dos défices orçamentais e do sobre endividamento que nos assola.  Recordemos também a limitada eficácia das medidas de austeridade aplicadas aos devedores como solução assimétrica dos desequilíbrios crescentes. Considerando a ausência dos instrumentos de ajustamento tradicionais, a Europa estará provavelmente ainda mais desigual daqui a 5 anos.  

Quanto mais desigual a Europa, menos nos restará do sonho Europeu de um União pacifica e próspera.  A ameaça de saída do Reino Unido será o menor dos nossos problemas se a divergência económica, e portanto política, continuar a aumentar.
 Há condições que são essenciais mas não suficientes para garantir o "sonho de uma união europeia".
- A aplicação de regra de ouro de disciplina financeira, sobretudo nos países devedores
- A união bancária,  com uma centralização da supervisão bancária que continua a falhar, como se vê pelo caso actual

A condição essencial. e talvez suficiente, para uma Europa melhor e mais convergente passaria por promover o reequilibro de comércio intra-Eurozone, concedendo algumas preferências a bens e serviços provenientes dos parceiros comerciais  mais frágeis e mais deficitários, com se faz com países emergentes.  Neste contexto, o potencial  Acordo de Comércio Livre com os Estados Unidos,  representa uma nova ameaça para os pequenos países europeus.  Como em quase todos os episódios de liberalização comercial e integração económica, os ganhos serão provavelmente capturados pelos  países maiores e mais fortes, enquanto os países mais pequenos e mais fracos sofrem ainda mais de des-economias de escala.
É uma ilusão pensar que as pequenas empresas portuguesas conseguem competir com as empresas alemãs, holandesas e francesas cada vez mais fortes. Outra ilusão ainda mais perigosa é promover o corte de salários nos países mais pobres quando qualquer aluno de MBA aprende que a competitividade passa cada vez menos pelo preço e cada vez mais pela qualidade, pelo branding e marketing, e pela integração das cadeias de valor e de fornecimentos em nichos cada vez mais estreitos e temporários.

O Presidente Juncker vai precisar de todas as suas qualidades de conciliador e negociador para recolocar a Europa no caminho do reequilibro, em defesa do sonho Europeu que todos partilhamos.

Mariana ABRANTES de Sousa 
PPP Lusofonia

Ver mais sobre preferencias comerciais em http://ec.europa.eu/trade/policy/countries-and-regions/development/generalised-scheme-of-preferences/