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domingo, setembro 07, 2014

Papas na língua e outras falhas de governação

A  queda do Banco Espirito Santo é o mais recente, e esperemos o derradeiro, buraco que apareceu na crise financeira portuguesa que sofremos desde 2008.  Ao fim de 6 anos, finalmente nos questionamos quem são os responsáveis, quem poderia ter evitado este desastre e como.
Estas análises forenses ou de “post-mortem” são muito importantes, ainda que as respostas mais imediatas, começando todos por apontar o dedo uns aos outros, dificilmente serão as mais certeiras.
Algumas coisas deveriam ficar claras desde logo:
- Os sistemas de boa governação funcionam em cadeia e a vários níveis, com normas e procedimentos, check lists, pesos e contrapesos e redundâncias ou back-ups. O desastre financeiro da dimensão desta (primeira?) bancarrota de Portugal do século XXI não ocorreu devido à falha de um ou outro único interveniente. Houve falhas em catadupa, dentro e fora de Portugal, dentro e fora do Estado.

- Para os incompetentes e irresponsáveis, a culpa é sempre dos outros, apressando-se eles a “sacudir a água do capote”.
- Criticar faz parte das boas praticas de gestão de risco, especialmente quando é feito de uma forma equilibrada e transparente.  Ninguém gosta de um bufo, um “whistle blower” ou  um delator, mas é preciso ter sentido crítico e coragem para denunciar praticas abusivas ou simplesmente arriscadas.

Sabemos que num Portugal ainda salazarento, premeia-se quem sabe manter a “bola baixa”, quem “entra mudo e sai calado”, quem “tem papas na língua”. Quando predomina o conformismo social, temos os “bland leading the blind”, a liderança dos brandos, que não ouvem, que não vêm, que não dizem nada.   Quando predomina o conformismo autoritário, temos o problema de “power distance” excessiva, em que o chefe tem sempre razão, mesmo quando o “rei vai nu”.
Convém recordar que quando a segunda pessoa a assinar um documento simplesmente “assina de cruz", está a criar a ilusão de escrutínio, dando falso conforto aos demais, o que representa um valor acrescentado negativo inaceitável.
Assim, que venha o escrutínio, que venham as comissões de inquérito.

E que não se limitem a crucificar esta ou aquela pessoa.  Com um “estampanço” desta magnitude, com custos sociais e colectivos elevadíssimos, não será suficiente “retirar os malandros”.
A boa governação, que tanto nos falta em Portugal, faz-se com base em Princípios, Praticas, Procedimentos, Participação, Prudência, Ponderação, e não apenas com Pessoas.
Impões-se um reflexão a todos os níveis. Não podemos deixar que os nossos bons “brandos costumes” nos condenem a pagar facturas colectivas cada vez mais elevadas por erros individuais e colectivos evitáveis. Por isso, não devemos desperdiçar a oportunidade que nos oferece esta crise  para criar e consolidar as bases de boa governação, para um desenvolvimento económico e social sustentado, isto é para que esta seja a última bancarrota de Portugal.

Mariana ABRANTES de Sousa 
PPP Lusofonia
Sabedoria popular nos provérbios financeiros http://ppplusofonia.blogspot.pt/2010/06/tudo-sobre-economia-e-financas-nos.html 
Entrar mudo e sair calado http://www.tvi24.iol.pt/economia/negocios/bes-em-seis-anos-entrei-mudo-e-sai-calado