Tradutor

sábado, março 15, 2014

Tabus não pagam dívidas

Debt workout 101 -
A renegociação que faltava
O recente “Manifesto dos 70” serve para colocar o tema da insustentabilidade da dívida em discussão, em vez de obedecer aos tabus impostos pelos credores.  A Irlanda já renegociou,  bem, parte da sua divida externa.  A Grécia nem sequer negociou, acabou por receber  um “haircut” imposto pelos credores oficiais sobre os credores privados.  Uma renegociação mal feita, um exemplo do que pode acontecer a um país que perde o controlo de suas finanças. 
Renegociar as condições de pagamento com os credores é absolutamente normal  na banca, e há princípios de “credit workout” bem estabelecidos.  Um desses princípios é a partilha de sacrifícios. Afinal de contas, os credores são co-responsáveis pelo nosso excessivo endividamento, pois ninguém os obrigou a emprestar.
Sustentável mas pouco
A troika e a imprensa financeira concentram todas as atenções na  divida pública directa, em vez de focar a divida pública alargada, incluindo PPPs e empresas públicas.  Mas o verdadeiro problema é a elevada divida externa bruta, incluindo a pública e a privada.
O FMI coloca a divida publica portuguesa em 129% do PIB,  mais do dobro do limite de 60% definido para a Eurozone, e ainda muito acima do nível 90% do PIB  onde começa a penalizar o  crescimento, de acordo com o trabalho importante de Reinhart and Rogoff
Mas a dívida privada de 255% do PIB é ainda mais preocupante,  mas   não se ouve falar disso na imprensa portuguesa.  Enquanto o FMI fala em desalavancagem das empresas e famílias portuguesas, os jornais ocupam-se com novas campanhas de crédito ao consumo.
E isto sem quantificar os encargos líquidos com pensões. 
Aparentemente, a  negação e falta de realismo dos pensionistas e do Tribunal Constitucional contagiou as administrações dos bancos e das autoridades monetárias.
Credores  externos fogem à co-responsabilidade
Ao evitar entrar em default, Portugal foi reembolsando a dívida vincenda e de curto prazo, privilegiando os credores externos.  Para isto, os bancos portugueses recorreram a funding o ECB para se poderem substituir aos credores em fuga.  Se tivesse havido  algum incumprimento ou suspensão de pagamentos, os reembolso teriam sido congelados e a renegociação tornar-se-ia obrigatória.    
Sendo os credores externos a mandar e a ditar os tabus,  os sacrifícios continuarão totalmente do lado dos devedores locais.
Em qualquer caso, é natural que haja conflito de interesses entre os pensionistas e os investidores obrigacionistas, pois ambos dependem da capacidade de pagamento do Estado e ambos querem ser privilegiados na distribuição da escassa receita fiscal.
Recomendações inconsistentes
No seu relatório, o FMI continua a insistir em mais cortes salariais, uma “solução” que vai mais uma vez provar ser equivocada.  Primeiro, porque  o corte no rendimento disponível das famílias vai provocar ainda mais crédito mal parado na banca; e mais desespero de quem está em risco de perder o carro e a casa como ouvimos os policias dizer esta semana na escadaria de S. Bento.  O FMI recorda que ainda restam €4,9 biliões dos fundos para recapitalizar a banca. Entretanto há crescimento do emprego nos “agentes de execução”. 
E já lá vai o tempo em que os baixos salários atrai investimento directo estrangeiro virado para a exportação.  O sucesso do sector externo  vai depender da capacidade da empresas nacionais venderem no estrangeiro, não dos estrangeiros virem cá comprar.  A redução dos salários pode reduzir importações, a forma mais dolorosa de o fazer,  no país do consumismo e das bimby.
Se não conseguirmos renegociar os prazos e taxas, vamos falhar nos montantes
Em vez de assistir à dança de credores, devíamos chamá-los à colação para conseguirmos melhores condições em termos de prazo e de taxa.  Pagar a dívida existente a 20 ou mais anos e reduzir taxas para 2% é essencial,  mas nem isso é suficiente.  
O que faz falta é a negociação de novos financiamentos aos sectores produtivos  e de cobertura  e redução dos prémios de risco-país para que um projecto português consiga ser financiado nos mesmos termos que projectos semelhantes no resto da Eurozone.  Mas o  FMI não tem receita para melhorar o financiamento do sector exportador e às SMEs.  O próprio BEI preocupou-se  mais em conseguir a substituição de garantias bancárias por garantias do Estado do que em financiar as exportações portuguesas.
As avaliações da nossa capacidade de reembolso divergem, mas a experiencia indica que um devedor em crise que não consegue facilidades de pagamento acaba por falhar nos reembolsos.
Gestão financeira  portuguesa tem que dar provas
A má gestão financeira que nos trouxe a esta crise continua com um misto de impunidade e ingenuidade.  Os processos prescrevem em tribunal.  Quem levanta questões inconvenientes é acusado de irresponsável e é exonerado das suas funções.  Anunciam-se investimentos em infra-estruturas sem qualquer referencia a estudos de tráfego.  A desorçamentação de PPPs e das empresas publicas ainda não cumpre a lei.  A desastrosa afectação de recursos em em projectos improdutivos ameaça continuar.
E, não bastando ignorar as mensagens de alerta, dá-se cabo dos mensageiros.
Tem mais impacto negativo na balança de pagamento, e portanto no rating da República Portuguesa,  a opção facultativa de aumentar o crédito ao consumo do que a imperiosa necessidade de alargar os prazos de reembolso de dívida externa. 
E o consenso alargado vai ter que esperar, quando os devedores se deixam capturar por uns e outros credores. 
Mariana Abrantes de Sousa 
PPP Lusofonia

Debt Workout 101 http://ppplusofonia.blogspot.pt/p/crise-da-eurozone.html
Reis, 2013  The Portuguese Slump and Crash and the Euro Crisis http://www.nber.org/papers/w19288
Reinhart and Rogoff, Causalidade entre dívida e estagnação http://ppplusofonia.blogspot.pt/2013/04/on-reinhart-and-rogoff-debt-and-growth.html

quinta-feira, março 13, 2014

Desalavancagem para que te quero

CTT "didn't get the letter" from the IMF (see at bottom)   

O país do consumismo recusa-e a cair na real.  Os CTT, agora sobre gestão privada,  anunciam a entrada no crédito ao consumo

Parece que não estudaram os relatórios do FMI que diz que a dívida do sector privado (empresas e famílias) chega a 255% do PIB, que é insustentável, e que tem que haver uma grande desalavancagem. O relatório usa a palavra deleveraging, desalavancagem,  18 vezes, incluindo para dizer que ainda há muito por fazer. 

Noutros países o "postal bank" dedica-se sobretudo à recolha das pequenas poupanças.  Em Portugal, até as campanhas de poupança apelam ao consumismo e às viagens.  Fora as campanhas do crédito automóvel, ao lado das campanhas SOS Famílias Endividadas em risco de perder o carro, a casa e a serenidade. 
Sabemos que a falta de literacia financeira dos devedores é um factor de risco no crédito "subprime".

Onde está o Banco de Portugal, o nosso regulador (im)prudencial,  em tudo isto? 
Onde está a fiscalidade do crédito ao consume dos anos 1980s e 1990s, imposto do selo de 5-10% que ajudou Portugal a recuperar da última bancarrota 

Num países às avessas, se não fosse trágico, seria cómico. 

Crédito ao consumo vai engordar CTT 
Mensagem do FMI terá sido extraviada nos CTT ?

País bimby recusa-se a cair na real 

Como manter os portugueses em viagem  

SOS Famílias Endividadas
    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/projecto-sos-familias-endividadas-propoe-planos-de-reestruturacao-de-dividas-por-via-judicial-1621474

Falta de literacia financeira promoveu o sobre-endividamento com crédito fácil "subprime" http://ppplusofonia.blogspot.pt/2012/02/falta-de-literacia-financeira-promoveu.html

"Both public and non-financial private sector debt—respectively close to 129 and 255 percent of GDP—remain uncomfortably high by any standard. Faced with such high debt, clearly, further fiscal consolidation and private sector deleveraging will be necessary. But perhaps more importantly, working these heavy burdens down will require sustained high growth."  Subir Lall,, Portugal: Concluindo o trabalho        http://www.imf.org/external/lang/portuguese/np/blog/2014/021914p.pdf 

quarta-feira, março 12, 2014

País bimby vai caindo na real

O FMI diz que a divida publica portuguesa é marginalmente sustentável, se não houver nenhum agravamento.  Fala-se num manifesto a apelar à reestruturação da dívida de modo a criar condições para que haja crescimento e emprego, uma iniciativa baseada na conclusão de que Portugal não consegure reembolsar a dívida externa nos seus termos actuais. 

Já em Outubro 2012 se falava em renegociar as condições de pagamento para  2% e a 20%.  

Portugal está mais endividado até do que a Grécia e a divida externa é insustentável, contrário ao que diz o FMI que foca apenas a divida pública e  ainda continua a exclui a divida das SEE e das PPP, uma ilusão.  De facto, o problema de sobre-endividamento da economia Portuguesa teria sido detectado muito mais cedo se se tivesse controlado correctamente na Divida Externa Bruta. Devemos recordar que quem deu o primeiro alerta a respeito das PPP não foi o FMI mas sim a OCDE.

Noutros aspectos o FMI tem razão: não há volta atrás, para o  modelo insustentável,  focado no consumo, nas importações e nos investimentos improdutivos.   Mas continuamos a ouvir pessoas a lamentar-se quando se fala de cortes permanentes na despesa pública.  E as importações recorde de máquinas para  fazer sopa são  uma vergonha.   E a propor portos e caminhos de ferro onde não há carga.

As campanhas bancárias e de crédito ao consumo continuam desatinadas.  Mostram como boa parte de Portugal continua em negação a respeito da situação financeira, e da desalavancagem necessária, no sector público mas também no sector privado, famílias, empresas e até concessionárias de PPPs.
Se a dívida pública representa 129% do PIB, a dívida do sector privado não financeiro chega a 255%, um nível  incompreensível.

Esta desalavancagem só se consegue  em acordo de credores, e eles não estão para aí virados.  Veja-se que os própios BEI e ECB só financiam com base em garantias e caucões.  O  redlining ou cerco aos devedores continua a apertar-se.  Mas  é melhor do que continuar a endividar-nos para comprar quinquilharia importada.

Com credores como estes quem precisa de inimigos.
Preciamos é de condições de pagamento a 2% e a 20 anos

Ver http://ppplusofonia.blogspot.pt/2012/10/precisamos-de-condicoes-de-pagamento-20.html
Resumo em português http://www.imf.org/external/lang/portuguese/np/blog/2014/021914p.pdf
Relatório FMI  Fev-2014 http://www.imf.org/external/pubs/ft/scr/2014/cr1456.pdf
Manifesto http://www.tvi24.iol.pt/economia---economia/manifesto-divida-personalidades-reestruturacao-da-divida-ministros-politicos/1543633-6377.html
Redlining  na Eurozone http://ppplusofonia.blogspot.pt/2014/03/redlining-in-eurozone.html
Portugal obcecado pela Bimby e outros aparelhos http://www.tvi24.iol.pt/videos/video/14044500/54
Debt Workout 101 http://ppplusofonia.blogspot.pt/2012/10/debt-workout-101-sinais-de-alerta.html

terça-feira, março 11, 2014

Conferência sobre Banca e Competitividade

ppt-março14O Seminário “Políticas Públicas às Terças” no ISCSP, Universidade de Lisboa, organizado por Pedro G Rodrigues,  Pedro Goulart e Sandra Firmino contará em Março com uma apresentação da Mariana Abrantes de Sousa.  A apresentação pode ser solicitada para ppplusofonia...gmail.com. 
Tema:              Intermediação financeira, sustentabilidade orçamental e competitividade:        A banca como alavanca para sair da crise 
Conferencista:  Mariana ABRANTES de Sousa 
Data:               Terça-feira, 11-Fev-14, 13hLocal:              
ISCSP, nstituto Superior de Ciências Sociais e Políticas ,
Universidade de Lisboa, Pólo Universitário da Ajuda, 
1349-055, Lisboa 
 Podem ver o calendário actualizado das apresentações até Junho 2014 aqui.


segunda-feira, março 10, 2014

Redlining in the Eurozone

Banking  and financial intermediation is a public service but sometimes it fails to serve the public.

One abusive banking practice used to be called redlining in the US, when banks would redirect all credit activities away from a given neighborhood or town plagued by high default rates, and practice other forms of financial descrimination and credit rationingSome redlined maps were drawn to meet the guidelines of official credit insurers such as the FHA, Federal Housing Administration.  


The figures for the utilization of the emergency financing provided by the ECB under the LTRO show a new form of redlining in the Eurozone.  One must question who the really needy beneficiaries of the emergency ECB  funding in the depths of the credit crunch

The Long Term Refinancing Operations (LTROs) to provide an infusion of low interest rate funding to distressed Eurozone banks, taking sovereign debt as collateral. The cheap loans are offered monthly, and are typically allotted in three months, six months and one year. But the ECB also announced a three-year LTRO in December 2011, where it loaned 489 billion to 523 banks for an exceptionally long period of three years at a rate of just 1%. In February 2012, it held a second auction, LTRO2, providing 800 euro-area banks with further 529.5 billion euros in cheap loans.

How do you say redlining in Greek? κόκκινη γραμμή  
And credit crunch ?  πιστωτική κρίση

Source:  http://www.icn.com/en/article/2014/02/17/Will-ECB-cheap-loans-help-banks-euro-banks-survive-2014-stress-tests/index.aspx 

sábado, março 08, 2014

Barcelos por água abaixo 2004-2014

A  Águas de Barcelos é, desde Janeiro de 2005, a concessionária dos sistemas públicos municipais de distribuição da água e de drenagem de águas residuais do concelho de Barcelos com base no contrato de concessão outorgado no mandato do presidente Fernando Reis.

Nesse contrato a câmara estimava, e GARANTIA , um consumo de 168 litros de água por habitante (para uma população de cerca de 122.000) quando esse valor nunca ultrapassou os cerca de 60 litros por habitante.
A concessionária, detida pela AGS, presidida por Pedro Falcão e Cunha de 1988 a 2009, do grupo Somague (e da Sacyr espanhola), e pela ABB – Alexandre Barbosa Borges, recorreu ao tribunal arbitral em 2010, o mecanismo (vinculativo) de resolução de conflitos previsto no contrato de concessão.

Devido a esta garantia de volume mínimo, em 2012 a Câmara Municipal de Barcelos foi condenada por um tribunal arbitral constituído para o efeito, a pagar uma indemnização de 5,89 millhões de euros por ano  até 2035, num total de  172 milhões de euros à Águas de Barcelos, dos quais 24,6 milhões de euros relativos ao período 2005-2009. Este encargo anual não orçamentado,  por água não consumida, representa cerca de 22% das receitas próprias do município.

Não havendo direito a recurso a decisão do tribunal arbitral  “provocará a insolvência do município de Barcelos”.A câmara recorreu também à Justiça pedindo a anulação do contrado de concessão e contesta a decisão do tribunal arbitral.

Fernando Reis, que liderou o concelho durante 20 anos é agora arguido, junto com outras 11 pessoas (vereadores da maioria que aprovaram o contrato e vários técnicos municipais)  indiciadas por vários crimes, incluindo o de gestão danosa, na sequência de inspeções da IGAL e de investigação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

Para além do relatório de auditoria do Tribunal de Contas, resta saber muitas outras coisas:
- Quem fez os estudos de volume, quer da parte do Município Concedente, quer da parte do concessionário e dos bancos credores, terá sido o Instituto da Água?
- Porque é foi necessário dar uma garantia de consumo mínimo quando os operadores do sector das águas geralmente aceitam risco de volume e risco de preço?
- Se o contrato resultou de um concurso público internacional e mereceu o visto do Tribunal de Contas, os potenciais encargos do Concedente foram quantificados e orçamentados na despesa plurianual e no limite de divida municipal?
- Aplica-se o artigo 57º da Lei das Finanças Locais Lei 73/2013  que proibe ao Estado assumir dívidas e encargos das autarquias?
-  Aparentemente, a entidade reguladora IRAR "recomendava" a não adjudicação do contrato, mas esse parecer não era vinculativo, e o contrato foi adjudicado com os votos da maioria. Que mais  poderiam ter feito os vereadores da maioria que votaram contra o contrato?
- Que seria de Portugal se os outros 307 municípios tivessem feito contratos igualmente ruinosos, não sendo possível impedi-los?
- Se foi tudo feito na "letra da lei",  porque é que a lei não serviu para evitar este descalabro?
- Haverá justiça, ou quando é que prescreve o processo-crime (como é de esperar em Portugal)? 

Uma coisa é certa. Se os municípios não fizeram estudos economicofinanceiros para quantificar os riscos que estavam a assumir, os concessionários e os seus bancos certamente fizerem modelos financeiros para quantificar as rendas potenciais que iriam usufruir. 

Eis um caso em que ninguém fica bem na fotografia, nem o concessionário espertalhão, nem o concedente capturado, nem o regulador ineficaz, nem o fiscalizador confiante.  
E tudo pago pelo contribuinte... brando.

Mariana ABRANTES de Sousa 
PPP Lusofonia

Para saber mais:
Marques e Silva (2008)   Revista de Estudos Politécnicos, Polytechnical Studies Review,  As Parcerias Público-Privadas em Portugal. Lições e Recomendações, http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/tek/n10/n10a03.pdf
Relatório de auditoria http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=720398&tm=6&layout=121&visual=49
Tribunal arbitral  - http://www.ionline.pt/artigos/portugal/aguas-camara-barcelos-na-ruina-causa-indemnizacao-172-milhoes-euros
Nova Lei das Finanças Locais 73/2013  http://www.ccdr-n.pt/fotos/editor2/lei_73_2013.pdf
Privatização da água  http://www.tretas.org/PrivatizacaoDaAgua
Processo-crime   http://www.publico.pt/local/noticia/expresidente-da-camara-de-barcelos-constituido-arguido-no-caso-da-concessao-da-agua-1584699
Tribunal arbitral http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=2786760&opiniao=Ant%C3%B3nio+Marinho+Pinto
Código de ética e conduta da Somague 2009  http://www.construcaomagazine.pt/scid/webCM/defaultArticleViewOne.asp?articleID=441&categoryID=780

quarta-feira, março 05, 2014

Concessões por água abaixo

O recente Relatório de Auditoria n.º 03/14 do Tribunal de Contas sobre as concessões municipais de água vem esclarecer o mau desempenho de boa parte das 27 concessões do sector que abrangem 44 municípios.

Recorde-se que a distribuição de água é um serviço municipal que pode ser operado directamente pela Câmara Municipal, ou através de um SMAS serviço municipalizado de água e saneamento inteiramente público, o que acontece em mais de 90% dos 308  municípios. Os municípios têm autonomia para se tornarem concedentes com contratos de 20-40 anos, mesmo que não tenham experiência nem capacidade financeira para o fazer, pois os encargos públicos com PPP e concessões não são considerados dívida pública.

Muitos dos municípios são pequenos, 115  têm menos de 10 mil habitantes.   O Ministério do Ambiente   e do Ordenamento do Territórioe  e o regulador ERSAR promoveu alguma  harmonização de boas praticas, de uma forma mais ou menos facultativa.  Em 2009 com o Decreto-Lei n.º 277/2009  o ERSAR, o regulador cuja principal missão é  proteger o consumidor, foi incumbido de emitir pareceres, obrigatórios mas não vinculativos,  sobre as peças concursais,   as minutas do contrato de concessão e respectivas alterações (nomeadamente no âmbito de reequilíbrios). Com 27 concessões de água e muitos reequilíbrios e renegociações, o ERSAR só fez 8 auditorias.

As concessões são um forma de contratação antiga.  Já há cerca de 130 anos, a Camara Municipal do Porto outorgou uma concessão de obras e serviços de águas à Compagnie Générale des Eaux pour L’Étranger.  Esta concessão durou de cerca 1880 até 1927 e foi caracterizada por incumprimentos, conflitos, decisões de juízo arbitral, etc.  O desempenho da concessionária poderá ter contribuido para o relativo atraso do Porto na "Transição Epidemiológica" segundo um artigo publicado na Analise Social em 2000.

Para este relatório o TdC examinou  19 das 27 concessões municipais de distribuição de águas (em baixa), contratos baseadas no Decreto-Lei n.º 379/93, que definiu “o regime de exploração e gestão dos sistemas multimunicipais e municipais de captação, tratamento e distribuição de água para consumo público, de recolha, tratamento e rejeição de efluentes e de recolha e tratamento de resíduos sólidos”. Esta legislação não exigia estudos de viabilidade.  Em parte, trata-se  de sistemas de água e saneamento que já existiam, por isso os concessionários deveriam remunerar o concedente pelo direito de exploração e de cobrança ao utlizador

O TdC aponta algumas conclusões importantes: 
* Falta de transferência de riscos, sobretudo riscos do volume da procura,  para o parceiro-privado
(ex. Barcelos, do Fundão, de Valongo, de Paços de Ferreira e de Santo Tirso/Trofa)
* Clausulas de .reequilíbrio financeiro demasiado abertas, quase todas as alterações legislativas e regulamentares podem, na prática,  potenciar pedidos de reequilíbrio financeiro a favor das concessionárias.  (ex. Matosinhos)
* Cerca de 74% dos contratos de concessão prevêem, expressamente, a possibilidade das concessionárias serem ressarcidas pelos municípios concedentes em relação ao caso base, no caso de se verificar uma determinada redução do volume total de água faturado e da estimativa de evolução do número de consumidores. (Minimum Revenue Guarantee). Entretanto, os caudais consumidos e faturados, têm ficado entre 10% a 30% abaixo dos valores estimados no caso base.
(ex:  Barcelos, de Paços de Ferreira, de Paredes, de Carrazeda e de Marco de Canaveses)
* Falta de  análises de risco e de sustentabilidade orçamental da parte dos municípios concedentes, que apresentaram falta de capacidade para contratar e controlar concessões. Um caso em que a autonomia excede a capacidade de gestão.
* Mais de 96% dos eventos elegíveis para efeitos de reequilíbrio financeiro ou revisão contratual resultaram do défice de procura respeitante aos caudais estimados, de modificações unilaterais ao tarifário e de alterações ao plano de investimento.
Reposição de reequilíbrio dos contratos de concessão privilegiadas pelos concedentes, tem sido  através do aumento do tarifário aos utentes e a redução/eliminação da retribuição paga aos municípios concedentes.

Algumas recomendações do TdC:  
Reforçar os poderes e capacidades da ERSAR como regulador económico do sector e como apoio técnico dos municipios concedentes, como definido no memorando de entendimento com a Troika)
Rever o regime jurídico dos serviços municipais de abastecimento público de água, de saneamento de águas residuais urbanas e de gestão de resíduos urbanos, em consonância com os princípios e boas práticas constantes do Regime geral das PPP
Eliminar  a clausula que permite reequilíbrio a favor do concedente apenas se a TIR  acionista  for superior ao dobro daquela que consta do caso base inicial.
Exigir estudos de viabilidade económico-financeiro, comparador público,   e a análise dos riscos específicos do projeto, em termos da comportabilidade dos encargos e benefícios envolvidos para o concedente
Rever a metodologia inerente aos processos de reequilibrio e limitar os eventos a considerar.
Transferir o risco de  construção, gestão, exploração, manutenção, conservação e financiamento dos serviços concessionados para a concessionária.
Aplicar o Decreto-Lei n.º 194/2009, de 20 de agosto, devem ser acautelados princípios e pressupostos elementares constantes do regime geral das PPP e do Código dos Contratos Públicos.
Rever em baixa as expetativas de remuneração inicial dos acionistas da concessionária, especialmente TIR acionistas  superiores a 10% .

Outras recomendações
Mas é urgente ir mais além para corrigir os excessos das PPP, aplicando outras medidas recomendadas, sem as quais as PPP continuarão a apresentar riscos inaceitáveis para o contribuinte (fiscal risks).  É necessário BLINDAR as PPP contra os erros de gestão. 
- O concedente público deve quantificar e orçamentar or cabimentar todos os encargos,  previsíveis e não só,  com a concessão,  durante pelo menos 10-anos, e passivo com as PPP deve ser incluído no limite de endividamento público   e aprovado anualmente na Assembleia Municipal ou na Assembleia da Republica.  O passivo com PPP é divida comercial mas acarreta mais riscos do que a dívida pública financeira, e deve estar sujeito a  limites pre-aprovados, aplicando o artº 31 da Lei de Enquadramento Orçamental na íntegra.
- Deveria haver um limite aos excesso de encargos liquidos para o Concedente, relativamente aos valores do caso base devidamente cabimentados,  por qualquer motivo, que lhe permitisse resgatar a concessão e abrir novo concurso.  Isto poderia servir de travão automático às reclamações de reequilibrio sucessivo, pondo termo a contratos problemáticos.
- As tarifas devem estar sujeitas à Regulação económica da ERSAR, que deve prevalecer sobre as clausulas contratuais no que respeita à confortabilidade das tarifas ao utilizador e à qualidade de serviço. Em muitos países, esta revisão pelo regulador sectorial é feita cada 5 anos anos, em termos que os concessionários conhecem e aceitam quando concorrem à concessão. Isto serve de tecto e de pre-aviso às concessionárias que as suas pretensões de aumento de preço terão limite e que terão que apostar na eficiência. Para isto será necessário explicar à Associação de Municípios porque é que os monopólios naturais de serviços públicos têm que ser sujeitos a regulação independente, como se aprende nas às aulas de economia
- Os responsáveis pela gestão imprudente e danosa dos contratos de concessão existentes devem responder perante a justiça, para que se venham a conhecer bem as consequências.

A má gestão das PPP, incluindo as municipais, foi um dos principais factores que levou o rating the República Portuguesa ao lixo.  Se deixarmos passar, voltará a acontecer. 

Mariana ABRANTES de Sousa
PPP Lusofonia


Fontes:
Maia (2000) Transição epidemiológica, infra-estruturas urbanas e desenvolvimento: a cidade do Porto,  Análise Social http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218811605V0pTE5ay7Qo57FI9.pdf
Artigo 31, Lei de Enquadramento Orçamental  http://ppplusofonia.blogspot.pt/2010/05/leo-lei-de-enquadramento-orcamental-vai.html 
Relatório 3/14 do Tribunal de Contas http://www.tcontas.pt/pt/actos/rel_auditoria/2014/2s/audit-dgtc-rel003-2014-2s.shtm
Associação de Municipios contra a regulação de monopólios  http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3655914
 AEPSA (Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente)  http://economico.sapo.pt/noticias/aepsa-alertou-governo-para-distorcoes-nas-ppp-das-aguas_188244.html

Haverá necessidade de apoio depois do programa de ajustamento

Os comentadores do ETV Mariana Abrantes de Sousa, Hélder de Oliveira e Jorge Ribeirinho Machado analisam a visita da 'troika' e as propostas do relatórios da Comissão e FMI para o que ainda falta fazer em Portugal e como poderá ser a saída de Portugal do programa de ajustamento, num debate conduzido por Sandra Xavier. "Edição das 12" de 26 de Fevereiro de 2014.

Precisamos de financiamento em termos favoráveis à exportação.

segunda-feira, março 03, 2014

Consultoria para o Desenvolvimento - Oportunidades


Estão a sair os novos Contractos Quadro da cooperação europeia do Europaid (Framework Contracts) 


Tem o seu CV actualizado no formato de consultoria ?...

Ver as consultoras contratadas para os 12  lotes, que são:  
Lote 1: Desenvolvimento rural 
Lote 2: Transportes e Infra-estruturas 
Lote 3: Telecomunicações e tecnologias da informação 
Lote 4: Energia e segurança nuclear 
Lote 5: Conferências 
Lote 6: Meio Ambiente 
Lote 7: Governação e Assuntos Internos 
Lote 8: Saúde 
Lote 9: Cultura, Educação, Emprego e sector Social 
Lote 10: Comércio, normas e promoção do setor privado 
Lote 11: Macroeconomia, Estatística, Gestão das finanças públicas 
Lote 12: Ajuda Humanitária, Gestão de crises 
e assistência pós-crise

Lista de consultoras por lote: 

domingo, fevereiro 23, 2014

Avaliação de desempenho dos SIEG - Serviços de Interesse Económico Geral



O Decreto-Lei n.º 133/2013 de 3 de outubro  que criou a nova Unidade Técnica de Acompanhamento e Monitorização do Sector Público Empresarial (UTAP-SPE) refere expressamente a recuperação das funções do antigo  Gabinete para a Análise do Financiamento do Estado e das Empresas Públicas (GAFEEP criado pelo Decreto-Lei nº 99/1987 por ocasião da anterior crise de endividamento externo, mas não refere como vai ser a articulação da Tutela financeira com as Tutelas técnicas dos transportes, saúde, ambiente, etc. 

Os operadores de serviços públicos têm tuas Tutelas:  De um lado o Ministério das Finanças como accionista, do outro lado o Ministérios de Transportes ou Ministério da Saúde que é quem tem a obrigação de serviço público.  Em termos práticos, o ministério sectorial funciona como "concedente de facto" de qualquer operador de serviço público, mesmo quando não há contrato de concessão.  Recorde-se que o contrato de concessão da ANA foi outorgado apenas uns meses antes da privatização.  

Se a missão vai ser apenas de “prestar apoio técnico” ao  Ministério das Finanças como accionista das empresas públicas, tendo em vista o seu equilíbrio económico e financeiro,   resta saber como é que UTAP-SEE se vai articular com os outros ministérios para assegurar o bom desempenho das obrigações de serviços públicos, em termos de cobertura, qualidade e sustentabilidade.  

Esta ligação entre as duas Tutelas  foi sempre o elo mais fraco da gestão empresarial do Estado, o que permitiu as empresas públicas andar em roda livre,  como filhos de pais desavindos, acumulando passivo que veio depois a surpreender os mais desatentos, o tal íceberg de dívida.  

Devemos reconhecer que a disciplina financeira do Sector Público Empresarial falhou redondamente na última década, e que os modelos de controlo anteriores, da DGTF ou do GAPEEP,  não estão à altura das novas exigências. De nada serviram  os modelos de controlo de gestão com 40-50 indicadores, quando o único indicador que importava, o passivo total dentro e fora do balanço, e incluindo os passivos com pensões, era cuidadosamente ignorado.  

No novo DL, de passageiros ou utentes nem se fala. Apesar do grosso das empresas públicas serem do sector de transportes, esta palavra aparece apenas para garantir as ajudas de custo dos funcionários da UTAP-SPE. 

Seria certamente mais eficaz responsabilizar os ministérios da Tutela técnica "concedente" que teriam de controlar e responder pelo bom desempenho económico-financeiro dos operadores públicos, englobando todos os apoios orçamentais do Estado no Programa Orçamental respectivo, de transportes, de saúde, etc.  Isto permitiria fazer contas  tão simples e importantes como quando custa aos contribuintes transportar um passageiro/km

Mariana ABRANTES de Sousa
PPP Lusofonia 

Fontes.  DL 133/2013  http://www.base.gov.pt/base2/downloads/DL133_2013-sector_Publico_Empresarial.pdf
Noticia http://www.publico.pt/economia/noticia/unidade-de-controlo-das-empresas-publicas-arranca-em-abril-1624330
Iceberg de dívida  http://ppplusofonia.blogspot.pt/2009/12/encargos-extra-orcamentais-com-servicos.html